Introversão e Timidez

Os conceitos de tímido e introvertido são muitas vezes confundidos devido à algumas semelhanças, mas na verdade, cada um deles significa algo diferente.

Para a psicóloga Ana Lúcia Esteves, a timidez, acanhamento e retraimento são sinais de pessoas que se sentem inibidas, temerosas e com grande desconforto em situações específicas de interação social. Esse tipo de sentimento pode interferir no contato pessoal e nas relações como um todo, inclusive no trabalho. Desta maneira, fica difícil a realização dos objetivos pessoais e profissionais de quem sofre com isso.

Segundo Esteves, muitas vezes quem é tímido tem preocupação excessiva com o próximo. Pensamentos como: "o que será que o outro está pensando?", "será que eu estou agradando?", "o que será que significa isso que a pessoa fez?", "qual significado do que ela disse?", "o que será que ela está pensando de mim?", etc. O foco sai de si próprio e o próximo se torna o centro das atenções. Quem é tímido costuma sentir-se pior ao interagir com quem não conhece bem, justamente porque o desconhecido é mais difícil de controlar e saber lidar. Mas nada impede da timidez acontecer dentro de casa, no próprio núcleo familiar, o que acaba afastando as pessoas de uma possível conversa e/ou maior interação.

O tímido não consegue expressar os sentimentos e pensamentos de forma adequada, costuma dizer ou falar apenas metade do que pensa. São pessoas que guardam para si e muitas vezes ninguém sabe o que está se passando na cabeça delas, pois ficam fechadas e até mesmo isoladas quando conseguem. Esse tipo de dificuldade faz com que a pessoa não interaja efetivamente com os outros. O contato acaba sendo superficial. Esse tipo de atitude pode confundir quem lida com o tímido. Muitos tímidos foram confundidos e até mesmo taxados como pessoas arrogantes e frias, justamente pelo afastamento e a distância que se cria pela dificuldade de interação.

Mesmo havendo certo prejuízo no contato social, a timidez em si não é considerada uma doença psicológica nem um transtorno mental. Obviamente, se o comprometimento desse contato causa transtornos maiores, pode-se pensar em outras patologias como diagnósticos.

A timidez em si não é ruim, funciona muito bem como um "termômetro" e regula a interação no contato social. Afinal, sair dizendo tudo o que pensa e sente não é uma ação considerada adequada na nossa sociedade. O ponto chave é manter esse equilíbrio.

Já a introversão é uma atitude subjetiva. Esse direcionamento se dá para o mundo interior e para os seus processos internos, o que torna esse indivíduo introspectivo e retraído. A introversão se aproxima da timidez, quando afeta o indivíduo tornando-o acanhado, com vergonha ou dificuldades de se expressar. O contato social torna-se muito desgastante e quem sofre com isso sente que a interação com o próximo suga a energia. Estar em grupo não é um momento relaxante. Quem tem o foco de atenção em si em excesso, muitas vezes, se fecha e tem dificuldade na interação social.

Quem é tímido não é sempre retraído. Por isso, muitos tímidos são considerados extrovertidos em diversos momentos. Existem pessoas que se sentem fechadas em qualquer contato social, mas muitas conseguem separar as situações, por exemplo, não gostam de festas, mas não têm problemas no trabalho em grupo, ou não falam em público, mas se dão bem em ambientes sócias e consegue se expressar tranquilamente para várias pessoas.

O grande problema de ser tímido ou introvertido é quando não se consegue expressar adequadamente o que sente ou pensa. Quando os sentimentos de medo e insegurança tomam conta da pessoa e o resultado é ficar em casa retraído e fechado. E com isso, o contato social é severamente comprometido. Para esse tipo de situação extrema um tratamento para mudança é fundamental. Lembrando que quem sofre com a timidez mesmo em grau menor, pode também buscar ajuda para aperfeiçoar-se. Técnicas de programação neuro-linguística (PNL), hipnose, sessões de coaching e aulas de teatro costumam ser bem eficazes.

Um curso de teatro causa grandes mudanças na vida das pessoas. O indivíduo desenvolve capacidades interpessoais nas aulas, aumentando sua desenvoltura, o pensamento cooperativo e o planejamento de atividades criativas, como escrita de roteiro e atitude dramática.

Além disso, o teatro é capaz de estimular o ponto de vista crítico, auxiliando os alunos a compreenderem culturas distintas por meio da interpretação de papéis. Esse tipo de atividade desenvolve a empatia e a tolerância nas pessoas, que passam a ver e compreender os outros em diferentes perspectivas.

Quando alguém se põe na posição alheia, fica também mais fácil superar os próprios problemas e vencer a timidez desenvolvendo uma postura mais firme na vida com segurança e menos ansiedade.

Os desafios aos quais o indivíduo se submete na aula de teatro proporcionam momentos de diversão e descontração. Na hora de decorar textos e aprender as técnicas, é necessário improvisar. Com isso, a criatividade aparece para “salvar” das enrascadas. É assim, convivendo com os colegas de elenco e driblando as situações, que a timidez pouco a pouco vai sumindo.

No curso de teatro, é possível melhorar a capacidade de concentração e de compreensão. Para estudar os textos e decorá-los, é preciso assimilar bem os conteúdos, saber interpretar cada cena e adaptar o personagem à sua essência. Vocabulário é ampliado, palavras são mais bem pronunciadas, a escuta fica mais aguçada e a expressão oral se torna mais clara favorecendo a dicção. E assim, aumenta a autoestima, melhora o relacionamento com os outros, promove o trabalho em grupo, contribui para o autoconhecimento, para a consciência do corpo e da coordenação, estimula a memória e a atenção, além de exercitar constantemente os pensamentos.

Os estudantes de teatro também passam a se interessar mais pela literatura e pela poesia, desenvolvendo a imaginação e a criatividade. Com isso, controlam suas emoções e se expressam com maior naturalidade, sem ter vergonha de aprender errando e tentando repetidas vezes.

A arte cênica é terapêutica na medida que promove a busca do indivíduo por si mesmo, pelos seus verdadeiros afetos e desafetos, pela sua identidade, da auto aceitação e o faz entrar em contato com suas emoções e limitações transformando-o em um ser verdadeiramente liberto dos temores típicos da timidez.

Lilian Luchesi